Cães de Chernobyl: Mutações no DNA Revelam Evolução Acelerada
Eles foram deixados para trás no inferno radioativo.
Abandonados em um dos lugares mais letais do planeta, os cães de Chernobyl não apenas sobreviveram; eles estão sofrendo uma metamorfose biológica silenciosa. Décadas após o pior desastre nuclear da história, cientistas finalmente quebraram o código genético desses animais e o que encontraram é, no mínimo, perturbador.

A Zona de Exclusão de Chernobyl, um deserto fantasmagórico na Ucrânia evacuado às pressas após a explosão do Reator 4 em 1986, tornou-se o laboratório de evolução mais extremo do mundo. Ali, entre ruínas e radiação, uma população de cães vadios prospera e se reproduz há quase quarenta anos, desafiando a lógica da sobrevivência.
O Mistério das Duas Linhagens: Cães Geneticamente Distintos em Chernobyl

Vivendo entre as estruturas colossais da Usina Nuclear de Chernobyl, esses animais enfrentam doses constantes de radiação ionizante e toxinas industriais. Uma pesquisa revolucionária conduzida por especialistas da Universidade Estadual da Carolina do Norte e da Escola Mailman da Universidade Columbia analisou o sangue de 116 cães semisselvagens.
A descoberta foi chocante: existem dois grupos geneticamente isolados que vivem a poucos quilômetros de distância.
Um grupo reside nas sombras do próprio reator, enquanto o outro habita a cidade de Chernobyl, a 16,5 km do epicentro. A análise genômica revelou que, apesar da proximidade, eles quase não se cruzam, criando uma “ilha genética” dentro da zona de exclusão.
Os cientistas identificaram 391 loci atípicos e 52 genes candidatos que parecem estar sendo forçados a mudar pela pressão seletiva do ambiente. Genes como o XRCC4, crucial para o reparo de DNA, e o CNTNAP2, ligado ao sistema imunológico, mostram sinais de adaptação frenética para manter esses animais vivos onde nada mais deveria prosperar.
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O desastre de 1986 liberou mais de 5.000 petabecquerels de material radioativo, espalhando isótopos como o césio-137 e o estrôncio-90. Mas a radiação não é o único vilão. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) documentou uma mistura tóxica de metais pesados, pesticidas e compostos industriais impregnados no solo.
Na infame Floresta Vermelha, onde os níveis de contaminação são extremos, o impacto biológico é visível. Os cães que vivem mais próximos ao reator apresentam menor diversidade genética e altos níveis de endogamia (cruzamento entre parentes), o que geralmente levaria à extinção. No entanto, eles continuam avançando, transformando-se em espécies sentinelas que guardam segredos sobre a nossa própria resiliência biológica.
A composição dessas matilhas é dominada pela ascendência de Pastor Alemão, misturada a raças rústicas como o Laika da Sibéria Ocidental e o Pastor do Cáucaso. Essa base genética robusta pode ser a chave que permitiu que o genoma canino respondesse tão rapidamente ao estresse ambiental.
Sentinelas do Apocalipse: O Que os Cães de Chernobyl Ensinam à Humanidade

A grande questão levantada pela Dra. Megan Dillon e pelo Dr. Matthew Breen é:
Essas mudanças são uma adaptação evolutiva deliberada ou apenas um erro genético aleatório (deriva genética)?
Se for adaptação, estamos presenciando a evolução em tempo real, acelerada por um desastre humano.
Diferente de ratos ou aves, os cães são modelos biológicos muito mais próximos dos seres humanos. Estudos anteriores na revista Environmental Research já mostraram efeitos transgeracionais em roedores, mas os cães de Chernobyl são o espelho de como vertebrados complexos podem reagir a um futuro pós-nuclear.
“Ao desvendarmos como esses cães sobreviveram em um ambiente tão hostil, poderemos entender o que isso significa para qualquer população — animal ou humana — que passe por exposições semelhantes”,
afirma o Dr. Breen ao portal Earth.com.
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