
Um pequeno povoado argentino, um antigo colégio cercado por histórias de fantasmas e uma reportagem televisiva que terminou com duas funcionárias públicas demitidas. O que começou como uma investigação sobre supostas assombrações acabou provocando um escândalo que ultrapassou os limites do sobrenatural.
Em Ernestina, uma localidade rural com aproximadamente 150 habitantes na província de Buenos Aires, relatos sobre gritos inexplicáveis, aparições e sensações perturbadoras atraíram uma equipe de televisão.
Mas, depois que as imagens foram exibidas, a reação foi inesperada.
O governo municipal afastou duas funcionárias que participaram da reportagem. O proprietário de um dos edifícios utilizados nas gravações protestou. E até a Igreja Católica decidiu se manifestar.
Afinal, o que existe de tão misterioso em Ernestina para transformar uma reportagem sobre fantasmas em uma controvérsia dessa dimensão?
O povoado argentino onde moradores relatam acontecimentos inexplicáveis
Ernestina pertence ao município de 25 de Maio, na província argentina de Buenos Aires.
Suas ruas tranquilas, construções antigas e edifícios históricos preservam lembranças de uma época em que a localidade tinha maior movimento.
Com o passar dos anos, a redução da população e o desaparecimento dos serviços ferroviários contribuíram para a atmosfera silenciosa que hoje caracteriza parte do povoado.
Mas Ernestina não está abandonada.

O lugar continua habitado e possui uma comunidade que preserva sua história, suas tradições e seu patrimônio arquitetônico.
O problema é que alguns desses edifícios também se tornaram cenário de relatos sobre presenças misteriosas, vozes e ruídos sem explicação aparente.
Essas histórias ganharam repercussão nacional quando o programa Mauro Szeta Presenta, da emissora argentina América TV, exibiu em 18 de outubro de 2026 uma investigação especial sobre os supostos fenômenos paranormais.
O especial, anunciado na imprensa argentina como uma investigação sobre fantasmas, tortura e morte, apresentou Ernestina como um destino carregado de histórias sombrias.
Segundo a divulgação do programa, a equipe do repórter Cristian Mercatante visitou antigos edifícios, uma igreja histórica e um colégio que se tornou o centro das lendas.
O antigo colégio onde dizem ouvir gritos e passos misteriosos
O principal cenário das histórias de assombração é o antigo Colégio Dr. Enrique A. Keen, uma instituição de ensino que funcionou durante décadas e atualmente se encontra desativada.
O edifício é frequentemente apresentado em relatos populares como um antigo orfanato, embora sua história documentada esteja ligada à educação em regime de internato.
As narrativas locais associam o prédio a histórias de disciplina rigorosa, supostos maus-tratos e experiências perturbadoras.
Com o fechamento da instituição, surgiram ou ganharam força relatos de pessoas que afirmam ter ouvido sons estranhos vindos do interior da construção.
Entre os fenômenos mencionados estão gritos, ruídos semelhantes a móveis sendo arrastados, objetos caindo e barulhos de origem desconhecida.
Alguns visitantes também relatam sensações de desconforto ao entrar em determinadas áreas.
Uma das funcionárias entrevistadas pela televisão, Victoria Pastorelli, afirmou que moradores e turistas já haviam comentado sobre sons aparentemente inexplicáveis nos arredores de edifícios antigos.
Outra participante, Leticia Echenique, relatou que certas áreas provocariam sensações físicas desagradáveis, como dor de cabeça e dificuldade para respirar, interpretadas por ela como possíveis manifestações de energias.
Mas existe uma distinção fundamental: esses são testemunhos pessoais, não evidências científicas de fantasmas.
Até o momento, não foram apresentados registros periciais independentes capazes de demonstrar que os sons ou sensações tenham origem sobrenatural.

A reportagem foi ao ar. Pouco depois, duas funcionárias perderam seus cargos
A investigação paranormal foi exibida no domingo, 18 de outubro.
Dois dias depois, a Prefeitura de 25 de Mayo anunciou uma decisão que transformou o caso em notícia nacional.
O prefeito Ramiro Egüen determinou o desligamento de Victoria Pastorelli, coordenadora de Ernestina, e de Leticia Echenique, funcionária municipal que também participava de atividades ligadas ao turismo.
De acordo com o comunicado da Prefeitura reproduzido pela imprensa argentina, a participação das funcionárias ocorreu em uma produção audiovisual que não recebeu autorização do Executivo municipal.
O governo declarou que a abordagem utilizada pela reportagem não representava seus critérios oficiais de promoção turística.
Também afirmou que a caracterização da comunidade como um povoado fantasma prejudicava a imagem dos moradores e desconsiderava a importância histórica da localidade.
Portanto, oficialmente, os desligamentos foram justificados pela participação em uma produção não autorizada e por questões institucionais, e não simplesmente pelo fato de as funcionárias acreditarem ou não em fantasmas.
Mesmo assim, o caso levantou uma pergunta delicada.
Até que ponto uma reportagem sobre histórias sobrenaturais pode comprometer a imagem de uma comunidade a ponto de provocar demissões?
Dono do antigo colégio denuncia uso indevido do imóvel
A situação ficou ainda mais complicada quando surgiu uma reclamação envolvendo o edifício que aparece na reportagem.
Segundo o jornal argentino La Síntesis, Sergio Ángel Guerra, proprietário do antigo Colégio Keen, apresentou uma notificação ao município.
Guerra afirmou que havia disponibilizado uma chave do prédio para atividades culturais e de preservação patrimonial.
Entretanto, segundo sua reclamação, o imóvel foi utilizado para gravações envolvendo supostos rituais e tentativas de comunicação espiritual sem sua autorização específica.
O proprietário solicitou explicações sobre quem permitiu o acesso ao local e exigiu providências relacionadas à utilização das imagens.
Também pediu a devolução da chave e que terceiros não ingressassem na propriedade sem permissão.
A Prefeitura, por sua vez, declarou publicamente que não possuía autorização institucional, chaves ou vínculos contratuais que lhe permitissem utilizar o edifício.
As versões divergentes acrescentaram mais uma controvérsia ao episódio.
O antigo colégio, antes conhecido principalmente pelas lendas que o cercam, tornou-se também o centro de uma disputa envolvendo autorização de acesso e responsabilidade pela produção televisiva.
Nem a igreja escapou da polêmica paranormal
A reportagem também apresentou a histórica igreja Nuestra Señora de Luján, um dos principais símbolos religiosos de Ernestina.
O templo foi associado, durante a produção, a relatos misteriosos e práticas de caráter espiritual.
A repercussão levou o bispo Ariel Torrado Mosconi, da Diocese de Nueve de Julio, a divulgar um pronunciamento em 20 de outubro de 2026.
Segundo a Agência Informativa Católica Argentina (AICA), o religioso rejeitou a utilização da igreja em conteúdos associados a práticas esotéricas e alegações paranormais.
O bispo esclareceu ainda que o sacerdote mostrado na reportagem não era o pároco de Ernestina e não possuía autorização da diocese para realizar atividades daquela natureza no templo.
Em sua manifestação, ele destacou que a igreja constitui um espaço de oração e parte importante da memória afetiva da comunidade.
Também defendeu que a história de Ernestina não deveria ser reduzida a uma narrativa de terror.
Com isso, a controvérsia passou a envolver não apenas a prefeitura e os participantes do programa, mas também representantes religiosos preocupados com a maneira como um patrimônio histórico foi apresentado ao público.
IMAGEM 3 — Igreja histórica de Nuestra Señora de Luján
Mas Ernestina já era conhecida por suas histórias de fantasmas
Embora a polêmica seja recente, as lendas sobrenaturais do antigo colégio não começaram com a reportagem de Mauro Szeta.
Antes mesmo da exibição do programa, veículos argentinos já haviam publicado reportagens sobre os mistérios do edifício.
Em setembro de 2024, por exemplo, o portal El Destape abordou as histórias de assombração relacionadas ao antigo colégio administrado por religiosas.
Isso mostra que a fama paranormal de Ernestina já circulava havia anos.
Ao mesmo tempo, registros jornalísticos e relatos históricos apresentam uma localidade com tradições, patrimônio e acontecimentos que nada têm a ver com fantasmas.
O povoado possui construções antigas, uma igreja de arquitetura marcante, edifícios associados à antiga ferrovia e memórias de famílias que participaram de seu desenvolvimento.
Uma reportagem da Radio Provincia, publicada em 2023, destacou justamente as lembranças e os vínculos afetivos dos habitantes com Ernestina.
Assim, existem duas narrativas que convivem no mesmo lugar: a história de uma comunidade real e as lendas de fenômenos inexplicáveis associadas a algumas de suas construções.
Uma não precisa apagar a outra.
Fantasmas de verdade ou histórias amplificadas pela televisão?
É justamente essa a pergunta que permanece sem resposta.
Os depoimentos sobre gritos, barulhos e supostas presenças podem estar relacionados a experiências sinceras de moradores e visitantes.
Mas também podem envolver interpretações subjetivas, ruídos estruturais, características ambientais ou a influência de histórias que já circulavam sobre o lugar.
Não existe confirmação independente de que o antigo colégio seja assombrado.
Também não foram apresentados elementos suficientes para estabelecer como fatos os relatos mais graves de mortes suspeitas e torturas mencionados na divulgação televisiva.
Entretanto, enquanto as supostas manifestações sobrenaturais permanecem sem comprovação, as consequências da reportagem são reais e documentadas.
Duas funcionárias perderam seus cargos.
O proprietário de um imóvel histórico apresentou uma reclamação formal.
A Igreja Católica divulgou uma manifestação pública.
E um pequeno povoado argentino passou a ser discutido muito além de suas fronteiras.
O mais curioso talvez seja justamente esse contraste.
Uma história sobre fantasmas invisíveis provocou consequências que ninguém pôde ignorar.
Ernestina: o povoado onde as lendas ganharam vida própria
Ernestina continua sendo uma pequena comunidade rural da Argentina, habitada por pessoas que vivem suas rotinas e procuram preservar sua identidade.
Mas agora, além das histórias do antigo colégio, das supostas aparições e dos ruídos misteriosos, o povoado também ficou conhecido por uma reportagem que provocou demissões e abriu uma disputa pública.
Para alguns visitantes, o antigo edifício continuará despertando medo e curiosidade.
Para outros, a verdadeira história a ser preservada está nas pessoas, na arquitetura e na memória de uma comunidade que resiste ao tempo.
E talvez o maior mistério não esteja apenas no que alguns afirmam ouvir quando a noite chega.
Está na capacidade de uma história de fantasmas mudar, de maneira tão concreta, a vida de pessoas reais.
E você? Acredita que Ernestina pode esconder acontecimentos sobrenaturais ou tudo não passa de lendas amplificadas pela televisão?
Deixe sua opinião nos comentários.
🔎 Continue explorando os mistérios
A vida após a morte: de onde vêm os fantasmas?
O suposto fantasma de uma mulher fotografado em um cemitério vitoriano
0 Comentários